Nem toda sociedade se organiza em torno de trocas econômicas, um conceito que ganhou força com o pensamento liberal a partir do século XVIII. Adam Smith idealizou o “selvagem” como um negociante nato, movimentando a economia local através do escambo. No entanto, essa visão carece de respaldo histórico e antropológico, sendo mais uma dedução baseada na ideologia do homo economicus.
As sociedades arcaicas, em contraste, se destacam pela ausência de mercado, Estado e autoridade. Elas não possuem sistemas de trocas econômicas. As trocas que ocorrem têm o propósito de fortalecer laços sociais, promovendo reciprocidade e compromisso moral, como exemplificado pelo ritual kula na Nova Guiné e o potlach entre indígenas norte-americanos.
Essas sociedades são comunais. Sem Estado, desconhecem a propriedade privada e a produção excedente para o mercado. Os meios de produção são coletivos. O antropólogo Pierre Clastres enfatiza a essência igualitária dessas sociedades. A figura do “chefe” não é de um chefe de Estado, mas sim de uma liderança moral, desprovida de coerção. A obediência não é compulsória. Chefes de aldeia precisam ter virtudes como oratória, habilidades de caça ou destreza em combate.
Seus membros resistem à autoridade e não valorizam excessivamente o trabalho. Há relatos de comunidades indígenas onde homens trabalhavam apenas dois meses a cada poucos anos, contradizendo a ideia de escassez. Essas sociedades produziam excedentes usados em festas e na recepção de outros povos, valorizando o tempo livre, o lazer e os jogos, o que surpreendeu os primeiros colonizadores.
O surgimento do mercado e do dinheiro é posterior à criação do Estado, segundo pesquisas históricas. Ambos necessitam de uma instituição que organize a produção, gere excedentes através de impostos e crie o dinheiro. O aparecimento do mercado e do dinheiro está ligado a sociedades estruturadas verticalmente, com o uso da força como elemento central. Essas sociedades surgiram com o aumento demográfico e a sedentarização humana após a agricultura, inviabilizando a forma primitiva da sociedade.
Essa evolução histórica levou à complexificação da divisão social do trabalho, com o surgimento de líderes políticos, camponeses, artesãos e forças militares. A dívida perdeu seu caráter moral e se tornou material, com pessoas devendo parte de seu trabalho ao Estado. Essa nova estratificação social é marcada por disputas e pelo uso da força.
O Estado, então, cria a moeda como forma legítima de pagamento de impostos. A moeda, historicamente variável, pode assumir diversas formas dependendo do contexto social, geográfico e da conveniência do Estado. Essencialmente, deve ser durável, difícil de falsificar e de produção relativamente simples. Ao cobrar tributos, o Estado garante sua existência, com a maior parte de sua estrutura dedicada ao aparelho repressivo, necessário em uma sociedade com exploração do trabalho e disputas internas.
Sem a criação do dinheiro pelo Estado, o mercado não seria possível. O surgimento de uma sociedade hierarquizada com um aparato de força para cobrar dívidas transformou as relações sociais. A produção de excedentes, a propriedade privada e o dinheiro se tornaram vitais para esse novo sistema.
É no capitalismo que a vida social passa a orbitar em torno da produção de mercadorias, da propriedade privada e da busca pelo lucro. O capitalismo se destaca por sua capacidade de revolucionar constantemente seus instrumentos de produção, alterando as relações de trabalho. Sua abrangência global redesenhou o mundo, forçando países e produtores locais a se adaptarem sob pena de extinção.
Essa dinâmica de acumulação capitalista afetou o equilíbrio do planeta, estabelecendo uma relação destrutiva com o meio ambiente. A exploração da natureza leva ao esgotamento da Terra, impulsionada pela racionalidade científica e sua lógica instrumental. A crise do modelo de produção capitalista e a crise ecológica estão, portanto, interligadas, transformando todas as coisas em mercadorias e priorizando a expansão dos lucros.
Estamos vivenciando um aumento na instabilidade do sistema planetário, com transformações que colocam em risco o futuro da humanidade, inaugurando o Antropoceno. Isso exige novas leituras da realidade, redefinindo as noções de ameaça e segurança, onde a maior ameaça sistêmica é a ultrapassagem dos limites planetários.
O risco no mundo globalizado também se relaciona com a ciência, a tecnologia e o conhecimento. O desenvolvimento técnico-científico aumentou a probabilidade de desastres em grande escala. Estamos cercados de novos problemas produzidos pelo desenvolvimento tecnológico e pela racionalidade capitalista, com o risco ultrapassando fronteiras nacionais, de classe, cor e gênero.
A manipulação genética, os transgênicos e o uso de agrotóxicos trazem graves riscos. A extinção de abelhas, essenciais para a polinização e o equilíbrio ecológico, é um risco real. Uma vez que ocorrem esses desastres globais, é impossível retornar às condições anteriores. Além disso, a complexidade dos riscos leva a desacordos científicos sobre a previsão, gerando desconfiança em relação aos especialistas, agravada pela espetacularização midiática.
A sensação de incerteza piora em contextos políticos e econômicos instáveis, marcados por relações de trabalho precárias e pelo individualismo. Do ponto de vista econômico, as crises capitalistas são crises de realização do capital, com declínio na taxa de crescimento e excesso de capacidade produtiva. A financeirização da economia, intensificada desde a década de 1980, com a retirada de direitos trabalhistas e o ataque às políticas redistributivas, criou um novo sistema de acumulação baseado no sistema financeiro, separando a “economia real” da “economia financeira”.
Em 2008, assistimos à maior crise capitalista desde 1929, com o estouro da bolha imobiliária dos EUA. Os Estados Nacionais e seus Bancos Centrais combatem essas crises comprando dívidas do setor privado para enxugar as bolhas, salvando os lucros dos capitalistas, mas gerando desigualdade e pobreza.
No campo cultural, o neoliberalismo construiu um individualismo onde trabalhadores são vigiados e se autorregulam, sabotando a coletividade e destruindo valores comunitários. O realismo capitalista, uma postura fatalista, colonizou todas as esferas da vida social, cingindo nossos sentimentos e sonhos. Marx já observou como o capitalismo dessacralizou a cultura, reduzindo a dignidade pessoal a trocas econômicas.
A incorporação das estéticas pelo mercado e a “precorporação” dos nossos desejos pré-formatam nossos desejos, tornando a rebeldia inofensiva. As subjetividades também foram afetadas pelas novas tecnologias de comunicação, alterando as interações sociais e a construção do eu e da afetividade.
As grandes questões da civilização contemporânea exigem coragem para reinventar a vida em comum. As sementes de um novo mundo podem ser vistas na práxis política que desafia o capitalismo, nos saberes tradicionais e em redes de solidariedade. O Antropoceno não é apenas a era da extinção, mas um instante de fragilidade em que podemos escolher entre sermos fósseis do capital ou protagonistas de uma utopia de reciprocidade.
Fonte: www.maispb.com.br