106 - Entre perrepistas e liberais, os exemplos de Ariano Suassuna e José Américo - Por Samuel Amaral

Recentemente, a polêmica em torno do nome da capital paraibana voltou à tona. O advogado Raoni Vita moveu uma ação junto ao Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB), solicitando a realização de um plebiscito sobre a mudança do nome da cidade. A consulta popular está prevista no artigo 82 da Constituição do Estado, mas nunca foi realizada.

No último dia 23 de outubro, a procuradora Acácia Soares Peixoto Suassuna, do Ministério Público Eleitoral (MPE), emitiu parecer favorável à regulamentação do plebiscito por parte da Assembleia Legislativa (ALPB),
que é a instituição competente para elaborar os termos da consulta. Certamente foi um dos últimos pareceres da Procuradora à frente do MPE local, uma vez que Acácia Suassuna concluiu seu biênio no comando da Instituição na semana seguinte, em 31 de outubro.

Mas, naquele mesmo dia 31, um novo capítulo foi acrescentado à trama: o deputado Hervázio Bezerra (PSB) apresentou uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), a fim de “sepultar a discussão”, definindo de uma vez por todas o nome “João Pessoa” para a cidade. Hervázio é sobrinho do Capitão Odon Bezerra (1901-1949), integrante da Aliança Liberal, e que atuou como chefe da Segurança Pública da Paraíba em 1930, durante o governo do interventor federal Antenor Navarro.

Tal polêmica mostra como a disputa entre “perrepistas” e “liberais” continua viva no inconsciente coletivo da Paraíba, mesmo passados 93 anos da Revolução de 30. O embate colocou em lados opostos dois dos nossos maiores escritores: Ariano Suassuna e José Américo de Almeida — que, no entanto, nunca perderam o respeito e a admiração mútua. Ariano chegou a ser cotado para a vaga de José Américo na Academia Brasileira de Letras (ABL), como atesta esta notícia publicada no Jornal do Brasil em 25 de março de 1980:

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Vinte anos depois, em 9 de outubro de 2000, Ariano tomou posse na cadeira 35 Academia Paraibana de Letras (APL), na sucessão do escritor Odilon Ribeiro Coutinho. A cadeira teve como fundador o próprio José Américo de Almeida, que escolheu Raul Campelo Machado como Patrono. Ariano revelou detalhes de sua relação com José Américo em sua coluna na Folha de S. Paulo.

O “folhetim” da posse na APL

Em julho de 2000, Ariano Suassuna estreou a coluna semanal Almanaque Armorial Brasileiro no caderno Ilustrada, da Folha. Era sua intenção que a coluna tivesse um “parentesco direto” com os almanaques, dada a variedade temática desses folhetos populares feitos usualmente em periodicidade anual.

 

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Ariano Suassuna, 1990s

Mas Ariano também queria que a sua nova coluna tivesse características de folhetim, e por isso cada texto era encerrado com a frase “continua na próxima semana”. Uma das principais características das obras desse gênero criado na Europa, mas muito difundido no Brasil, sobretudo no século 19 e no início do 20, é a de terem uma unidade mesmo quando publicadas descontinuamente.

Assim, três meses depois da estreia da coluna, Ariano publicou uma “folhetim” falando de sua posse na Cadeira 35 da APL, em outubro de 2000: Um Discurso Acadêmico (09/10), Academia Paraibana de Letras (16/10) e Dois Mestres e um Discípulo (23/10).

O artigo inaugural do “folhetim”, Um Discurso Acadêmico, foi publicado no dia da posse de Ariano na APL. Ele começa lembrando que, na década de 1950, empreendeu uma tentativa frustrada de escrever uma biografia do pai, o ex-governador João Suassuna (1886-1930), covardemente assassinado no dia 09 de outubro de 1930 — exatos 70 anos antes da publicação do texto e da posse na Academia Paraibana. Ariano escolheu o título Vida do Presidente Suassuna, Cavaleiro Sertanejo para o livro, porque via o seu pai como um Rei e Cavaleiro: “entre outras coisas ele tinha três Cavalos de sela, todos com nomes de Cangaceiros do grupo de Lampião: Passarinho, Bom-Deveras e Medalha”.

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Ariano não conseguiu escrever o livro dada a carga de sofrimento que ele acarretava. Por conta do assassinato do pai, ele teve de fugir da Paraíba com a mãe, Rita de Cássia Vilar Suassuna, e os oito irmãos. Passadas sete décadas da tragédia familiar, Ariano buscou refletir sobre sua eleição para a APL à luz da figura de seu pai:

“Escolhi o dia 9 de Outubro de 2000 para tomar posse dela [da cadeira 35] porque hoje faz exatamente 70 anos que meu Pai, João Suassuna, aos 44 anos de idade, foi assassinado, no Rio de Janeiro, com um tiro que um pistoleiro, para isso contratado, lhe desfechou pelas costas. Muito tempo depois, o grande paraibano que foi Alcides Carneiro, adversário de Suassuna em 1930, afirmou: ‘A revolução de 30, que não me arrependo de ter apoiado pelo mundo de esperanças

 

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Alcides Carneiro ▪ 1906—1976

que ela encerrava, nasceu maculada com o sangue de um inocente. Sangue paraibano. Sangue sertanejo. O sangue do paraibano autêntico, do sertanejo viril que se chamou João Suassuna. Não culpo o assassino pela covardia com que agiu. Atacar Suassuna de frente não era empresa para covardes’.

Alcides Carneiro poderia ter dito ‘os assassinos’: porque o mandante e os empreiteiros, se eram dotados de maldade igual à do executor, foram mais covardes do que ele, pois não tiveram nem sequer a coragem de comparecer à Rua do Riachuelo, no Rio, onde a emboscada se consumou”.

Mais à frente, Ariano afirma que sua eleição para APL estava “mais claramente apontada pelo destino”, uma vez que o Patrono da cadeira 35, Raul Campelo Machado, nasceu em Taperoá, berço político dos Suassuna:

“Tendo passado em Taperoá aquele que talvez seja o período mais decisivo para a criação do universo de um escritor, a infância e a adolescência, o Patrono da cadeira que hoje assumo
é Raul Machado, nascido em Taperoá. E, em meu romance ‘A Pedra do Reino’, fiz uma referência a esse fato, no capítulo em que se fala da Academia de Letras dos Emparedados do Sertão da Paraíba. Conta-se lá, ao modo de Quaderna:

‘O caso do genial Raul Machado bem demonstra como a Literatura pode ajudar uma pessoa a subir em sua carreira: porque foi com seus admiráveis Sonetos que ele escalou, de degrau em degrau, a escada da Magistratura, chegando até o posto de Ministro do Tribunal de Segurança, o grau mais elevado da nobreza-de-toga brasileira’.”

Ariano cita, então, o fundador da cadeira 35, o Ministro José Américo, cuja magnum opus, A Bagaceira, foi editada pela primeira vez em 1928 pela Imprensa Oficial da Paraíba, por ordem do próprio João Suassuna. Ariano lembra que seu pai atendeu a um pedido do escritor e jornalista Nelson Lustosa, uma vez que José Américo era adversário político de Suassuna.

Encerrando o texto, Ariano recorda que, ao tomar posse como fundador da cadeira 35 da APL, José Américo ligou seu nome ao de Raul Machado. Assim falou José Américo:

“Taperoá é um recanto do nosso Cariri. Se está chovendo, parece um paraíso. Entretanto, se o sol aperta, perde a natureza todas as suas leis. Vira um violento panorama de ventos sujos e céus ensanguentados. Empoeirado e luminoso. Há febre na terra e um bafo quente no espaço… Faltou (a Raul Machado) a emoção evocativa. Seria fantástico se essa visão não tivesse deixado nenhum reflexo, como o timbre regional de Ariano Suassuna, que andou por lá. Explica-se. (Raul Machado) não guardou as impressões do berço inconstante porque, tendo um pouco mais de um ano, vinha a família morar na capital. O dramaturgo da ‘Compadecida’ colheu uma experiência que, por ser tipicamente nordestina, foi uma revelação para o mundo”.

 

A cadeira de José Américo: o destino de Ariano

No segundo texto do “folhetim”, Academia Paraibana de Letras, Ariano continuou falando de seu relacionamento com José Américo, tentando demonstrar como a Cadeira 35 tinha mesmo de ser sua.

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“Taperoá é um recanto do nosso Cariri. Se está chovendo, parece um paraíso. Entretanto, se o sol aperta, perde a natureza todas as suas leis. Vira um violento panorama de ventos sujos e céus ensanguentados. Empoeirado e luminoso. Há febre na terra e um bafo quente no espaço… Faltou (a Raul Machado) a emoção evocativa. Seria fantástico se essa visão não tivesse deixado nenhum reflexo, como o timbre regional de Ariano Suassuna, que andou por lá. Explica-se. (Raul Machado) não guardou as impressões do berço inconstante porque, tendo um pouco mais de um ano, vinha a família morar na capital. O dramaturgo da ‘Compadecida’ colheu uma experiência que, por ser tipicamente nordestina, foi uma revelação para o mundo”. A cadeira de José Américo: o destino de Ariano No segundo texto do “folhetim”, Academia Paraibana de Letras, Ariano continuou falando de seu relacionamento com José Américo, tentando demonstrar como a Cadeira 35 tinha mesmo de ser sua. No ano de 1979, os acadêmicos Adonias Filho e Rachel de Queiroz lançaram, pela primeira vez, a candidatura de Ariano a uma vaga na ABL. Ele concordou com a ideia, mas avisou que “não aceitaria o galardão em termos de disputa”. Ariano chegou a mandar os telegramas de praxe, começando pelos escritores nordestinos entre os quais Jorge Amado, Mauro Mota, João Cabral de Melo Neto e José Américo de Almeida. Mas foi através de Jorge Amado que Ariano soube que o jornalista e escritor Otto Lara Resende havia se lançado candidato à mesma Cadeira, ao que ele prontamente retirou a candidatura.

No ano de 1979, os acadêmicos Adonias Filho e Rachel de Queiroz lançaram, pela primeira vez, a candidatura de Ariano a uma vaga na ABL. Ele concordou com a ideia, mas avisou que “não aceitaria o galardão em termos de disputa”. Ariano chegou a mandar os telegramas de praxe, começando pelos escritores nordestinos entre os quais Jorge Amado, Mauro Mota, João Cabral de Melo Neto e José Américo de Almeida. Mas foi através de Jorge Amado que Ariano soube que o jornalista e escritor Otto Lara Resende havia se lançado candidato à mesma Cadeira, ao que ele prontamente retirou a candidatura.

Ariano dedicou o parágrafo seguinte para recordar o “terrível problema político” da Revolução de 1930, que colocou João Suassuna e José Américo em lados opostos. Suassuna liderava o “Patriarcado rural”, enquanto José Américo havia tomado partido do “Capitalismo urbano”, sob a liderança de João Pessoa. Nas palavras de Ariano, a “campanha desencadeada então começou a assumir proporções de inusitada violência, até chegar a uma infâmia: a violação da casa de João Dantas pela Polícia paraibana e a publicação, no jornal do Governo, de sua correspondência particular, o que sucedeu com o consentimento e a aprovação do Doutor João Pessoa”.66 - Entre perrepistas e liberais, os exemplos de Ariano Suassuna e José Américo - Por Samuel Amaral

João Dantas era primo da mãe de Ariano. A invasão do escritório do advogado e a publicação de sua correspondência íntima resultaram numa sucessão de tragédias, nas palavras do escritor:

“[…] o assassinato do Presidente João Pessoa por João Dantas, o suicídio da moça a quem este amava, a poetisa Anayde Beiriz, o assassinato de Suassuna e a morte do próprio João Dantas, juntamente com seu cunhado Augusto Caldas, na Detenção do Recife, na tarde do dia 6 de outubro de 1930”.

Ariano lembra que, quando da invasão do escritório de João Dantas, chamado publicamente de “tarado” e “degenerado” nas páginas do jornal A União, José Américo, então chefe de Polícia do Governo João Pessoa não se encontrava na capital, e sim no sertão, a mais de 400 quilômetros de distância:

“Assim, nada teve a ver com ‘aquele desatino’, palavras por meio das quais ele mesmo [José Américo] discordou textualmente e formalmente da infâmia. Também para fazer justiça a José Américo de Almeida devo declarar que ele nada teve a ver, pessoalmente, com o assassinato de Suassuna”.

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José Américo com alguns dos “revolucionários” da Aliança Liberal. Na parede, o retrato de João Pessoa. ▪ Foto da revista O Cruzeiro de 05.01.1931 ▪ Fonte: Biblioteca NacionalAriano fez todas essas reminiscências para que o leitor do Almanaque entendesse “o alcance e o significado humano” da carta que José Américo lhe tinha enviado em 14 de março de 1979, quando Adonias Filho e Rachel de Queiroz haviam lançado seu nome para uma vaga na ABL. O escritor reproduziu a carta na coluna:
“Ariano Suassuna: Gostaria muito de votar em seu nome para a Academia Brasileira de Letras, por ser você paraibano e um valor tão alto que nunca deixei de aplaudir. Acontece, porém, que ontem, 13, recebi de Otto Lara Rezende [sic.] um telegrama pedindo-me meu apoio para a sua candidatura. Respondi também por telegrama, na mesma hora, afirmativamente, por ser um velho amigo e grande admirador daquele expoente das nossas letras. Não desejo que atribua essa minha posição a qualquer ressentimento diante de sua linha de combate contra os que fizeram a revolução de 30. Bem sabe que sempre reconheci que seu ilustre pai foi vítima inocente no mais monstruoso dos atentados. Seu conterrâneo e admirador – José Américo de Almeida”.
Ariano respondeu nos seguintes termos:
“Ilustre Ministro José Américo de Almeida: Ao longo de todos estes anos, desde que estreei na Literatura e no Teatro, tenho tomado conhecimento de suas generosas referências a meu trabalho de escritor como, por exemplo, uma que o senhor incluiu no elogio a Raul Machado, a propósito dos ocasos de Taperoá. Assim, compreendo perfeitamente que o senhor só está tomando posição em favor de Otto Lara Rezende por ter sido o seu apoio solicitado com antecedência. Aliás, o caso do senhor é igual ao de outros nordestinos, amigos fraternos meus, como João Cabral e Jorge Amado, que, sem saberem que Adonias Filho e Rachel de Queiroz iriam lançar minha candidatura, assumiram, também, antes, compromisso com Otto Lara Rezende (cujo merecimento, aliás, é indiscutível). Por isso, quando a carta do senhor aqui chegou, eu já enviara uma, no dia anterior, a Rachel e Adonias, pedindo que eles retirassem a minha candidatura, que seria, caso mantida, um fator de divisão e disputa, coisa que não quero. Quanto aos parágrafos finais de sua atenciosa carta, eu jamais o considerei capaz de um gesto menor, em tal linha… 
Sempre procurei fazer-lhe justiça, explicando que o senhor não tinha tido participação nenhuma nos dois momentos que nos feriram e marcaram para sempre em 1930: a violação da casa de João Dantas… e a morte de meu Pai. Li, emocionado, em ‘O Ano do Nego’, sua afirmação de que ele morreu inocente, fato que o senhor agora reitera, considerando-o ‘vítima inocente, no mais monstruoso dos atentados’. Agradeço portanto, não só sua atenção de escrever, dando-me lealmente conta de sua posição e dos motivos que o levaram a ela, como também a digna referência, que engrandece o senhor, à memória de seu adversário de 1930; e aqui se despede seu admirador e conterrâneo Ariano Suassuna”.

O capítulo final

No último texto do “folhetim”, Dois Mestres e um Discípulo, Ariano recorda do falecimento de José Américo no ano seguinte à troca das cartas transcritas na Almanaque. Ariano, como vimos acima, chegou a figurar entre os cotados para assumir a vaga de José Américo na ABL.

Em homenagem a José Américo, Ariano publicou um artigo na edição de 16 de março de 1980 do Diário de Pernambuco, no qual comentava as correspondências trocadas entre os dois, e que terminava assim:

“A vida e a morte de um Tolstói — escritor e profeta — ou a de um Gandhi — líder político e religioso — foram, e são, exemplares, para todos nós. Mas, mesmo dentro de medidas menores, a vida é tão traiçoeira e sinuosa, nossos atos e nossos destinos têm tantas possibilidades de erro e de extravio, que a figura do ilustre brasileiro que acaba de morrer assume um caráter de exemplo para todos os escritores nordestinos, sejam os de sua geração, os da minha ou os mais moços do que eu. Possamos nós pelo menos chegar ao fim da vida como ele chegou, envelhecendo e morrendo com seriedade, compostura e dignidade”.

Um folhetim que não tem fim: a Parahyba dividida novamente

Nascido na capital, Ariano Suassuna nunca chamou “João Pessoa” por esse nome. Numa entrevista concedida à TV Assembleia do Rio Grande do Norte, o escritor comentou o incômodo em relação à mudança de nome da capital:

⏤ […] Eu tenho muito desgosto de terem trocado o nome da cidade onde eu nasci — declarou.
⏤ Você não reconhece que é João Pessoa, não é? — indagou um dos entrevistadores.
⏤ Quando eu nasci, não era, não!
⏤ Por quê?
⏤ Porque era Parahyba! Mas eu reconheço que, na troca, houve uma vantagem! Foi o fato de que, para dizer “Paraíba”, ora se está falando do estado, ora está falando na cidade, como São Paulo […] Então, tem essa vantagem ⏤ ponderou.

Ariano morreu em 23 de julho de 2014, e seu velório foi realizado no Palácio do Campo das Princesas, no Centro do Recife. Em cima do caixão, foram colocadas bandeiras do Sport, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), do estado de Pernambuco e do Brasil. Faltava ali a bandeira do seu estado natal, a Paraíba, também trocada após a Revolução de 30.

No ano seguinte, o então deputado estadual Jeová Campos pensou em homenagear Ariano, acrescentando o nome do escritor ao Palácio da Redenção, como atesta esta notícia publicada no Jornal da Paraíba em 26 de julho de 2015. Jeová imaginava que a homenagem “cairia como uma luva”, afinal Ariano nasceu nas dependências do então Palácio do Governo, quando João Suassuna presidia o Estado.

Inocentemente, o deputado atraiu sobre si a ira de uma parcela significativa de políticos e intelectuais paraibanos. O Palácio da Redenção tem esse nome desde 1931, por sugestão da professora e poetisa Rita Miranda, como forma de homenagem — mais uma! — a João Pessoa, considerado o “Redentor da Paraíba”.

Segundo Jornal da Paraíba, “a proposta de mudança do nome do Palácio da Redenção arrancou manifestações contrárias do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba (IHGP), Associação Paraibana de Imprensa (API), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Associação Paraibana de Letras (APL). As mesmas manifestações contrárias, com a mesma veemência, ocorreram em tentativas pretéritas de mudança do nome de João Pessoa, novamente para Parahyba”.

Como se vê, a discussão não é nova. De tempos em tempos um novo capítulo é adicionado ao “folhetim”, que começou há mais de nove décadas. Resta-nos desejar que os atuais contendores, seja do lado perrepista, seja do lado liberal, tenham a mesma grandeza que tiveram Ariano Suassuna e José Américo.

P. S.Desde 2008 existe o movimento “Paraíba capital Parahyba”, que tem como principal expoente o músico e ex-vereador Flávio Eduardo Maroja Ribeiro, o Mestre Fuba. Naquele ano de 2008, ainda no exercício do mandato parlamentar, Fuba publicou o livro Parahyba 1930: a verdade omitida,
que ganhou uma segunda edição 15 anos depois, em 2021, com selo da Editora A União. Fuba foi acusado “de exercer o cargo público com o único intento de mudar o nome da cidade e a bandeira do estado”, como ele mesmo escreveu na apresentação da obra.

Tenho a impressão de que a discussão ganhou um novo fôlego há alguns meses, com a participação de Fuba no MangabaCast, que tem como anfitriões o jornalista Adelton Alves e o músico Marcelo Cruz. Transmitido em três de julho de 2023, o podcast conta com mais de 9,5 mil visualizações no YouTube, e figura entre os dez mais vistos do canal. Um reel de pouco mais de um minuto apareceu no feed do meu Instagram e foi suficiente para que eu quisesse assistir a íntegra da conversa, tal a paixão que Fuba empregou na defesa da mudança do nome da capital. O trecho em questão tem mais de 1,1 milhão de visualizações, e é o mais visto da conta do MangabaCast no Instagram.


Depois da veiculação do podcast, a procura por Parahyba 1930: a verdade omitida disparou. Eu, inclusive, adquiri meu exemplar na Livraria do Luiz, que detém a exclusividade na comercialização da obra. Segundo Jéssica Queiroz, gerente e diretora comercial da livraria, os livros disponíveis foram vendidos rapidamente: — Somando as duas unidades [da livraria], vendemos cerca de sete caixas do livro, o que dá 98 exemplares. Na semana do podcast esgotamos duas caixas em três dias, mesmo o livro tendo subido 40%. Agora, com o parecer do MP, a procura voltou com tudo, mas realmente não existem mais exemplares disponíveis — disse Jéssica.

A unidade do Mag Shopping da Livraria do Luiz também foi palco de um debate acalorado em torno do tema em agosto deste ano, durante a 86ª edição do Pôr do Sol Literário, promovido pela Confraria Sol das Letras. Entre os que apregoavam a volta do nome Parahyba estavam o próprio Fuba e o escritor José Caitano de Oliveira, autor do livro A saga de 1930 e o doido da Parahyba (2013). Coube ao historiador José Octávio de Arruda Melo contrapor-se a eles, defendendo a manutenção do nome atual. As falas foram entrecortadas por aplausos da plateia, que se manifestava ora apoiando um lado, ora o outro.

Termino assim como Ariano Suassuna fazia no Almanaque Armorial. O “folhetim” em torno do nome da cidade…

… Continua — muito provavelmente — na próxima semana.

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Fonte : Polemica Paraíba

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