Análise: Golpe no Níger é dor de cabeça do Ocidente e oportunidade da Rússia

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Dias depois que o presidente democraticamente eleito do Níger foi deposto, milhares de apoiadores do golpe militar lotaram a embaixada francesa na capital do país para entregar uma mensagem ao seu antigo colonizador e seus aliados ocidentais.

Enquanto o presidente Mohamed Bazoum era mantido em cativeiro por seus soldados no palácio presidencial em Niamei, cenas tensas aconteceram na rua onde os manifestantes pró-golpe, alguns agitando bandeiras russas, gritavam “viva Putin” e “abaixo a França” enquanto uma placa na embaixada era derrubada.

As imagens reverberaram pelos salões do poder no Palácio Elysee, em Paris, a milhares de quilômetros de distância. O presidente francês, Emmanuel Macron, ameaçou retaliação contra qualquer ataque a cidadãos franceses e condenou o golpe como “completamente ilegítimo e profundamente perigoso para os nigerenses, o Níger e toda a região”.

Os Estados Unidos e outras nações ocidentais também condenaram o golpe, e um bloco de países da África Ocidental ameaçou intervir militarmente se Bazoum não fosse restabelecido no poder.

O presidente dos EUA, Joe Biden, pediu a libertação imediata de Bazoum, em uma declaração por escrito, comemorando o Dia da Independência do Níger, dizendo que Washington “está com o povo do Níger” enquanto o país enfrenta um “grave desafio à sua democracia”.

A derrubada de Bazoum foi apenas a mais recente de uma série de golpes que se estenderam de um lado a outro da África. Ex-colônias francesas da África Ocidental e Central foram tomados por juntas militares nos últimos três anos.

Os golpes ocorreram no contexto de uma luta mais ampla entre o Ocidente e a Rússia por influência na África, onde especialistas dizem que uma crescente onda de raiva nas ex-colônias francesas deixou a porta aberta para o Kremlin. Embora não haja sinais de que a Rússia ajudou a instigar a rebelião do Níger, Moscou tentou tirar vantagem do sentimento antiocidental na região nos últimos anos.

Autoridades americanas alertam que o grupo mercenário russo Wagner, que ajuda a sustentar várias juntas militares na região, pode tentar explorar a crise no Níger. O chefe do grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, comemorou o golpe e se ofereceu para ajudar os novos líderes do país.

Enquanto os países ocidentais corriam para evacuar seu povo de Niamei na quarta-feira (2), um dos líderes do golpe do Níger voou com uma delegação para o vizinho Mali, onde centenas de empreiteiros do Wagner estão estacionados, para buscar o apoio do governante militar daquele país.

A Presidência do Mali postou fotos e uma declaração no Facebook, anunciando que o presidente de transição do país, Assimi Goïta, entrevistou uma grande delegação militar nigeriense / Presidência do Mali

Um importante aliado ocidental

O golpe no Níger privou as nações ocidentais, particularmente a França e os Estados Unidos, de um importante aliado em uma região conturbada.

Maior país da África Ocidental, o Níger foi apontado como uma história de sucesso democrático no continente e Bazoum foi visto como um parceiro crucial na luta contra os jihadistas islâmicos na região.

Cerca de 1.100 soldados dos EUA estão alocados no país, inclusive em uma base de drones que ajuda os militares nigerenses a combater insurgentes afiliados ao Estado Islâmico e à Al Qaeda.

Os militares franceses também mantêm duas bases permanentes na região do Sahel, uma das quais está em Niamei. Esta foi a base-mãe de sua principal Operação Barkhane, uma iniciativa antiterror francesa mais ampla que visa militantes em todo o Sahel, inclusive em Burkina Faso.

O número de eventos violentos envolvendo grupos militantes islâmicos no Sahel dobrou desde 2021, de acordo com um relatório publicado na segunda-feira (31) pelo Centro de Estudos Estratégicos da África, um think-tank do Pentágono.

O Níger também é um dos principais fornecedores de urânio para a União Europeia e produz cerca de 5% da oferta mundial do mineral, de acordo com a Associação Nuclear Mundial.

Base Americana no Níger / Carley Petesch/AP

Reação antifrancesa

Apesar de sua riqueza de recursos, o Níger continua sendo um dos países mais pobres do mundo. Muitos nigerienses, especialmente na geração mais jovem, veem a França como responsável pelos níveis de pobreza predominantes em seu país.

“Viemos dizer a este pequeno Macron da França que o Níger nos pertence. Cabe a nós fazer o que queremos com o Níger, lidamos com quem queremos”, disse Maman Sani, manifestante pró-golpe, à CNN.

Esse ressentimento se transformou em um crescente sentimento antifrancês que está crescendo nas ex-colônias francesas na África Ocidental e Central, disse Oluwole Ojewale, analista do Instituto de Estudos de Segurança.

“Há uma sensação de que, embora a França tenha concedido a independência… eles ainda estão ligados ao cordão umbilical da França. Há um pensamento sutil de que nada acontece nos países francófonos sem a aprovação tácita da França”, disse Ojewale à CNN.

Durante décadas, Paris manteve uma presença proeminente em muitas nações africanas decorrentes de sua história colonial no continente, uma relação conhecida como “Françafrique”.

A Françafrique tem sido frequentemente criticada por perpetuar práticas neocoloniais. Por exemplo, poucas coisas provocaram mais controvérsia do que o franco centro-africano ou FCA, uma moeda usada por 14 nações da África Ocidental e Central, incluindo o Níger.

Os países que usam francos FCA são obrigados a armazenar 50% de suas reservas de moeda no Banque de France, e a moeda está atrelada ao euro. Enquanto Paris afirma que o sistema promove a estabilidade econômica, outros dizem que ele permite que a França exerça controle sobre a economia dos países que o utilizam.

Presidente francês Emmanuel Macron e o então presidente do Niger, Mohamed Bazoum, em Paris, França, em 16 de fevereiro de 2023.
Presidente francês Emmanuel Macron e o então presidente do Niger, Mohamed Bazoum, em Paris, França, em 16 de fevereiro de 2023. / Antoine Gyori/Corbis via Getty Images

Uma batalha pela influência

A onda de raiva contra os franceses em suas ex-colônias na África apresenta uma oportunidade para a Rússia, que busca estender sua influência por todo o continente, disse Remi Adekoya, professor associado de política na Universidade de York, no Reino Unido.

“Quando as pessoas falavam sobre potenciais rivais da influência ocidental na África, era sempre a China”, disse Adekoya. “Nos últimos dois anos, essencialmente desde a guerra com a Ucrânia, a Rússia intensificou seus esforços e, de repente, a Rússia está de volta quase como um ator geopolítico no continente africano, e os serviços de inteligência ocidentais estão preocupados”.

O grupo Wagner é fundamental para a forma como a Rússia manteve e aumentou sua influência na África.

Várias investigações da CNN, juntamente com pesquisas de grupos de direitos humanos, descobriram a associação da empresa militar privada com atrocidades perpetradas contra populações civis no Mali e no Sudão, onde ela ajudou juntas militares. Os mercenários também foram rastreados em outras nações africanas, incluindo a República Centro-Africana, Moçambique e Líbia.

O fundador do Wagner, Prigozhin, atribuiu o golpe no Níger ao legado do colonialismo e disse que seu grupo era capaz de lidar com situações como a que se desenrolava em Niamei, embora ainda não haja sinais de que sua oferta tenha sido aceita.

“O que aconteceu no Níger está fermentando há anos”, disse Prigozhin em uma mensagem publicada nas redes sociais. “Os ex-colonizadores estão tentando manter o povo dos países africanos sob controle. Para mantê-los sob controle, os ex-colonizadores estão enchendo esses países com terroristas e várias formações de bandidos. Criando assim uma crise de segurança colossal”.

Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, ao lado do presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante reunião de cúpula Rússia-África em São Petersburgo / 27/07/2023 Sputnik/Pavel Bednyakov/Pool via REUTERS

Enquanto o golpe se desenrolava no Níger na semana passada, o presidente russo, Vladimir Putin, lançava uma ofensiva de charme para os líderes africanos em uma cúpula em São Petersburgo, onde criticou o colonialismo ocidental e cortejou os participantes com presentes, incluindo alívio da dívida da Somália, um laboratório médico móvel para Uganda e até um helicóptero presidencial para o líder do Zimbábue.

A reunião teve menos comparecimento do que o Kremlin esperava. Dezessete chefes de estado africanos compareceram, muito menos do que os 43 que participaram de uma cúpula anterior em 2019. A baixa participação ocorreu dias após o cancelamento da Rússia de um acordo de exportação de grãos ucraniano que irritou alguns líderes africanos.

O líder russo defendeu a sua retirada do pacto, fundamental para o abastecimento alimentar do continente, e prometeu enviar cereais gratuitamente a seis países africanos.

Um dos destinatários foi Burkina Faso, onde Ibrahim Traore tomou o poder em um golpe em outubro passado e desde então distanciou completamente seu país da França. O homem de 34 anos é o chefe de Estado mais jovem da África e foi um dos vários líderes da junta na cúpula, durante a qual prometeu o “apoio e a amizade do povo de Burkina Faso” à Rússia.

“A região está abalada pelo desejo de mudança de diferentes pessoas”, disse Traore em um discurso na cúpula. “Isso nos levou a dar as costas aos parceiros tradicionais e a voltar para nossos verdadeiros amigos, como a Rússia, que nos apoiou durante a descolonização até hoje”.

Traore também aludiu ao golpe no Níger, dizendo que os militares “assumiam a responsabilidade” pelo país, e pedindo apoio à nova junta. “Queremos a mesma coisa… um mundo multipolar rumo à soberania e uma mudança completa de parceiros.”

Traore recebeu as boas-vindas como um herói e foi cercado por uma multidão em seu retorno para casa.

“Os líderes militares estão usando o sentimento antifrancês para permanecer no poder”, disse Ojewale, especialista da ISS. “Eles afirmam ser os novos messias, mas desta vez, eles estão vestindo Khaki (uniformes). É o populismo antifrancês”.

Ojewale diz que Paris tem muito trabalho para conter a onda de sentimento antifrancês no continente.

“Os franceses precisam reconstruir e reparar com os países francófonos. Isso vai ser muito difícil de fazer. Há uma terceira onda de disputa pela África. Os ingleses estão chegando. Os chineses estão chegando. Os EUA estão chegando, a Rússia está chegando. Todo mundo quer negociar com a África”.

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Fonte : CNN BRASIL

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