O Brasil de Aruanda encontra o Brasil do Clube da Esquina em noite memorável

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O Brasil de Aruanda fica bem perto de nós aqui da Paraíba. A gente cresceu vendo o filme de Linduarte Noronha, o gordo Linduarte, para quem gritei um viva lá do meio da plateia na noite de abertura do Fest Aruanda, nesta quinta-feira, 30 de novembro de 2023, numa das salas da Cinépolis, no Manaíra Shopping.

O Brasil do Clube da Esquina vem de Minas Gerais. Minas e seus mistérios. O clube e suas canções que ganharam o mundo. Esses dois Brasis – o do filme de Linduarte Noronha e o de Milton Nascimento e seus amigos – se encontraram na primeira noite do Fest Aruanda. Foi memorável.

Glauber Rocha foi o primeiro a perceber a dimensão de Aruanda. O Cinema Novo ainda não existia, mas alguns dos seus pressupostos já estavam no filme de Linduarte, a quem Glauber chamou de santo. Já havia algo da estética do Cinema Novo em Aruanda.

O retrato do Brasil que há em Aruanda é triste, trágico e verdadeiro. Muita coisa melhorou, é preciso reconhecer que muito se avançou, mas continuamos um país brutalmente desigual. Por isso, Aruanda não perde o seu impacto, ainda mais visto numa tela gigante, como nesta quinta-feira.

O menino e a menina que aparecem na primeira metade do filme estão vivos e foram homenageados pelo festival. Erico e Neusa, comovidos com o reconhecimento e a comover quem estava na plateia. Continuam pobres, e nesse fato reside a certeza do quanto Aruanda é atual.

O tema do “Ó mana deixa eu ir” que percorre o filme fala do Brasil profundo. Vem das viagens de Mário de Andrade e foi entregue ao mundo por Villa-lobos numa das suas Bachianas. Milton Nascimento gravou lindamente no álbum Sentinela, do início dos anos 1980.

Aruanda abriu o programa da primeira noite do Fest Aruanda. Nada Será Como Antes – A Música do Clube da Esquina, fechou. É um documentário de longa-metragem dirigido por Ana Rieper, que começa a ser exibido nas salas brasileiras.

Quando Ana Rieper foi ao palco dizer algumas palavras, tinha ao seu lado Márcio Borges. Irmão de Lô, Márcio, 77 anos, é o primeiro letrista de Milton Nascimento. São dele muitos dos versos que ouvimos nas canções do Clube da Esquina. A sua presença entre nós alegra, comove e emociona.

Nada Será Como Antes é um belo e sensível documentário. Fala muito da amizade que gerou e moveu o Clube da Esquina. Mas creio que é sobretudo um filme sobre música e sobre como se deu a criação musical entre Milton Nascimento e seus amigos músicos e poetas.

Não é um filme de escolhas óbvias. Imagino que dialogará principalmente com músicos e não músicos que conhecem  a fundo o cancioneiro do Clube da Esquina. A narrativa vai fluindo lenta e levemente. Pede que a gente contemple aquelas conversas e todas aquelas canções.

Há o filme em si e há um filme transcendental que, durante a projeção, vai passando na cabeça da gente que foi contemporâneo do Clube da Esquina. Essas músicas contam um pedaço das nossas vidas. Contam um pedaço da vida brasileira, de quando esperávamos pelo grande país que viria do fundo da noite.

O filme em si é um trabalho realizado com muito amor por Ana Rieper e sua equipe. Milton, Márcio e Lô, Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho Horta, Robertinho Silva, Novelli, Nivaldo Ornellas, Tavinho Moura, Ronaldo Bastos – estão todos lá, falando, tocando e cantando.

Não há narração. Nem ordem cronológica. São eles que contam a história, são eles que montam a narrativa. E o fazem com o olhar de quem está longe, mas não perdeu o afeto. Milton e Márcio começaram a compor no dia em que viram Jules e Jim, de François Truffaut. As músicas do Clube da Esquina são os filmes que eles não fizeram. Nada Será Como Antes também conversa sutilmente com o cinema.

O Brasil de Aruanda. O Brasil do Clube da Esquina. São díspares, mas é possível imaginar que se complementam. Vê-los numa mesma noite, num mesmo programa, foi uma experiência muito forte. Tanto para o espectador e ouvinte que existe em mim, quanto para Márcio Borges e Ana Rieper, ouvi dele e dela depois que o filme acabou. A gente continua sonhando com o grande país que virá do fundo dessas noites que nunca se acabam.

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Fonte: Jornal da Paraíba

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