Houve um tempo em que Rubens Ewald Filho era o cara que sabia tudo de Oscar. No dia seguinte à cerimônia de 1985, ele não disfarçou sua contrariedade ao comentar a premiação. Ora, ganhou um filme – Amadeus – que Ewald ainda não tinha visto. O crítico apostara todas as fichas em Passagem Para a Índia, de David Lean.

Confesso que achei divertido ver a decepção de Rubens Ewald Filho em seu comentário no telejornal. Ele era tão arrogante em seus prognósticos que foi bem feito que tenha errado e passado recibo. Oscar? Quem vai ganhar? Acompanho as apostas, mas sempre desconfiando delas.

Fazer prognóstico é uma coisa. Torcer é outra completamente diferente. Na atual temporada, cheia de filmes muito interessantes, torço, por exemplo, por um filme que, se levasse a estatueta principal, me deixaria tão surpreso, mas não decepcionado, quanto Rubens Ewald Filho ficou na vitória de Amadeus.

A minha torcida é por Assassinos da Lua das Flores, embora pareça completamente improvável que conquiste o Oscar de Melhor Filme. O mesmo que pensei de O Irlandês em 2020, ano em que Parasita levou tudo. Assassinos da Lua das Flores? O Irlandês? Martin Scorsese? Não estão sob, mas sobre o Oscar.

Há muita gente apostando em Oppenheimer, que está disponível nos serviços de streaming depois da exibição nas salas brasileiras no ano passado. Também não são pequenas as apostas em Pobres Criaturas, atualmente em cartaz nos nossos cinemas.

Gosto não se discute. Lembram disso? Pois bem, não gosto de Pobres Criaturas. Não é o tipo de filme que me agrada. Não reconhecer os méritos que ostenta seria, porém, um gesto mesquinho. É grande filme e tem Emma Stone em atuação absolutamente extraordinária.

As chances de Maestro não resistiram aos primeiros dias em que o filme esteve nos cinemas e à sua chegada ao streaming. Como foi mal recebido o filme de Bradley Cooper! Uma pena. Considero uma bela e sensível cinebiografia de Leonard Bernstein. Cooper está perfeito como Bernstein, e Carey Mulligan brilha como Felicia, sua mulher.

Vidas Passadas é superestimado. Delicado, tocante, mas, me permitam, comum. Diferente de Anatomia de uma Queda, instigante, vigoroso, texto impecável, grande atuação de Sandra Huller, notabilíssimo filme de tribunal, extraordinária realização da diretora francesa Justine Triet.

Acabo de ver Zona de Interesse. Filme-porrada, assim vou classificar. O oficial nazista que manda em Auschwitz mora ao lado do campo de extermínio numa casa linda com sua família linda. A rotina na casa se contrapõe ao horror que o espectador não vê, apenas sabe que acontece.

É um filme muito original do cineasta inglês Jonathan Glazer. É um filme europeu com tudo o que os filmes europeus diferem dos americanos. A ausência de imagem na abertura e no desfecho chamam a atenção para algo essencial em sua narrativa de apenas 104 minutos: o som. Ou os sons. Prestem atenção neles.

O nazismo e a banalização do mal. Zona de Interesse trata disso com os mértos do grande cinema que é. O tema da banalização do mal, no entanto, não está circunscrito à Alemanha sob Hitler. Faz parte do homem em sua história sobre a Terra. Zona de Interesse mexe com o sono da gente.

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Fonte: Jornal da Paraíba